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domingo, 16 de maio de 2010

REGISTRO – UM EXERCÍCIO FUNDAMENTAL PARA A METACOGNIÇÃO

Este texto faz parte de uma publicação - Cadernos de Educação Notre Dame - nº 6 - 2009 -, é o relato teórico de uma experiência realizada por mim em um curso para professores da Rede de Educação Notre Dame em 2008 e vem acompanhado do Registro escrito por uma professora de Educação Infantil.
Certa vez, um homem, ao caminhar por uma trilha em meio a uma floresta, deparou-se com um rio. O rio era profundo demais para ser atravessado a pé e a correnteza era forte demais para que ele o atravessasse a nado. Próximo ao rio, havia uma pilha de toras de madeira de diferentes formas e espessuras. Aqueles pedaços de madeira e a corda que o homem trazia na mochila possibilitaram a solução do problema. Depois de algumas horas e algumas tentativas frustradas, o homem conseguiu construir uma estratégia que permitiu a travessia segura do rio.
O procedimento adotado por nosso personagem foi um exercício de metacognição. Ele observou a situação, refletiu sobre as possíveis estratégias, levantou diferentes possibilidades de execução das estratégias, avaliou o que não funcionara, revendo cada passo do plano e, enfim, conseguiu alcançar seu objetivo.
Quando retornou de sua caminhada precisou cruzar o rio outra vez e ainda outras tantas vezes quanto foi àquele lugar. Progressivamente, foi dominando sua técnica. Hoje, conhece seu ofício. Quando não está satisfeito com o modo como cruza o rio, para e pensa. Sabe o que deve fazer e como fazê-lo. Os anos deram a ele sobriedade e experiência. E também consciência. Está capacitado para refletir sobre suas decisões. Gera estratégias. Adquire consciência de como pensa e de como atua.
Podemos denominar metacognição o ato de refletir sobre o pensamento de cruzar o rio.
Metacognição é conhecer o que conhecemos, é a capacidade de estabelecer normas a si mesmo, ou seja, de ser autônomo, ter capacidade de se auto-regular. É criar um plano de ação e mantê-lo durante sua execução, é conduzir constantemente o pensamento, é a consciência de si mesmo e, ainda, é a reflexão consciente que permite converter o saber implícito em saber explícito.
Partindo desses pressupostos, o registro configura uma ferramenta fundamental para o processo individual de metacognição, assim como o estudo da metacognição vem corroborar a validade do exercício do registro.
É através do registro que o indivíduo concretiza o que está em seu pensamento. Após a vivência de toda e qualquer experiência de assimilação, quando nos deparamos com um novo objeto do conhecimento, muitos são os sentimentos e os pensamentos que frequentam nossa mente. A linguagem é o instrumentam pelo qual o novo saber se organiza e o registro é a forma como essa linguagem se transforma em saber que pode ser apropriado.
Ao escrevermos sobre uma experiência de construção de um novo conhecimento, organizamos o pensamento em forma de linguagem escrita e é esse processo que nos possibilita nos apropriarmos do novo conhecimento e adotarmos novos esquemas mais complexos para lidar com estes conhecimentos e outros tantos que a ele se relacionam.
Sendo assim, o ato de registrar é uma etapa fundamental do exercício de metacognição. É no momento em que escrevemos sobre o que vivenciamos, relatando as práticas observadas e, principalmente, organizando, na forma escrita, o que foi pensado, as reflexões pessoais e os caminhos de construção do novo conhecimento, que os novos esquemas são internalizados. É neste processo que o indivíduo toma consciência de seu novo saber e torna-se capaz de transformá-lo em saber explícito.


“Medo? Todos nós temos. Ele pode funcionar como um campo minado, acorrentando nossas emoções, nossos desejos, nossos sonhos, ou pode servir de mola que impulsiona, que gera movimento. Movimento que faço agora.
Vejo-me exatamente como Moncho, sentada na carteira, morrendo de medo, usando aqueles óculos velhos e vendo tudo em tamanho maior do que realmente era. Moncho transportou-me a meu primeiro momento na escola. Eu era como um pardal fora do ninho. E quem nunca sentiu-se assim? Tão longe e, ao mesmo tempo, tão perto?
Nesse meu movimento interno, percebo que olhar para tudo e para os outros de meu ninho é muito fácil.De meu lugar, vejo tudo como quero e da maneira como acredito ser. Difícil mesmo é ter que sair e ver tudo o que há num estranho ninho, terra desconhecida, terra do outro. Nesse lugar, não posso mudar nem trocar nada. É como se as asas da possibilidade fossem cortadas. Para voar no terreno do outro, é preciso permissão e, ao mesmo tempo, permitir-se.
Falando nisso, o quanto será que tenho me permitido? O quanto será que tenho desenrolado minha língua em busca do néctar? O quanto tenho permitido aproximar-me do saber do outro? Será que tenho me permitido observar? Será que tenho encontrado tempo para ouvir a língua das mariposas? Será que, nessa minha jornada, alguma vez, alcancei o cálice do mais doce néctar?
Movimento interno de cada um...
... será que meus alunos têm encontrado em mim a profundidade necessária para descobrir o que é doce?
Minha única certeza é a de que não preciso ir à Austrália para presenciar o desabrochar da mais bela das orquídeas. Posso ser uma, em qualquer lugar, em qualquer tempo. Posso ser uma ponte para que meus alunos atravessem e, assim, depois da sensação do trabalho realizado, desmoronar com prazer.
Entender a língua das mariposas não é fácil. Ser orquídea também não. O que posso fazer então? Posso estar aberta a seduzir tudo o que está a meu redor, até que descubram em mim, sujeito aprendente e ensinante, uma fonte inesgotável de conhecimento e não um pardal perdido no ninho.”


Vanda Alves S. Ferreira

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